O BeReal foi eleito o aplicativo do ano no App Store Awards 2022, com mais de 53 milhões de downloads. Mais de quatro anos depois, a pergunta que fica é: você ainda tem acompanhado essa rede social?
Sim? Você é um dos 40 milhões de usuários ativos mensais. Não? Não se preocupe, você não está só. O BeReal viveu o maior ciclo de hype e queda das redes sociais, mas sua trajetória virou um case para profissionais de marketing e social media.
A história do app escancara o cansaço com conteúdos produzidos e a busca por autenticidade na produção de conteúdo para as redes sociais.
Veja tudo sobre a ascensão, queda e renascimento do BeReal. E o que isso significa para o futuro das redes.
O que é o BeReal?
BeReal é uma rede social criada em 2020 por Alexis Barreyat. Ela surgiu com a proposta de ser o oposto das redes tradicionais por oferecer um aplicativo para compartilhar momentos genuínos e despretensiosos da vida real do usuário.

Fonte: bereal.com
Lançado em um momento em que o mercado já estava saturado de apps focados na perfeição e na edição, o que tornou o BeReal popular é justamente o que ele não tem:
- Não há filtros para embelezar as fotos;
- Não há um sistema de “curtidas” para medir a popularidade de uma publicação;
- Não existe um “feed infinito” que prende o usuário por horas na plataforma.
A abordagem “minimalista” foi pensada para reduzir a pressão social e o vício, incentivando uma participação menos preocupada com a aparência.
E o BeReal rapidamente conquistou uma grande fatia do público.
Segundo dados oficiais, o BeReal conta com mais de 40 milhões de usuários ativos mensais globalmente, e um relatório da Nielsen, encomendado pela empresa, confirma que seus principais mercados incluem Estados Unidos, Japão e França.
A plataforma também registra presença em outros países, como a Austrália, onde possui 99% de reconhecimento de marca entre seu público-alvo.
Como funciona o BeReal na prática?
A proposta central do BeReal é simples: uma vez por dia, todos os usuários recebem uma notificação em um horário aleatório chamada “É hora de BeReal”.

A partir desse momento, cada um tem uma janela de apenas dois minutos para tirar e publicar uma foto dupla que captura, simultaneamente, o que está à sua frente com a câmera traseira e a sua selfie com a câmera frontal.

Cada publicação tem duração de 24 horas e depois desaparece do feed, mas você pode acessar seu histórico no calendário de Memories do seu perfil.
Caso a foto seja publicada após os dois minutos, ela aparece no feed dos amigos com um carimbo de “atrasado”, expondo o descuido do usuário.
Uma das formas de interação mais criativas do BeReal são os RealMojis, que substituem as tradicionais curtidas.
Funciona assim: em vez de um simples coração, o usuário pode reagir às publicações dos amigos com uma foto sua imitando uma determinada emoção ou expressão, como um emoji gigante e personalizado.

Existem seis opções de RealMojis, incluindo um “Instant RealMoji” que tira uma foto da sua reação no momento, sem salvá-la para uso futuro.

Para ter acesso ao feed de BeReals dos seus amigos no dia, o usuário é obrigado a publicar o seu primeiro. É uma regra que estimula a participação ativa e garante que a rede social seja movida pelo conteúdo de todos, e não apenas de alguns espectadores.
Além do feed de amigos, o app possui uma aba “Discovery”, onde o usuário pode ver publicações de pessoas e marcas famosas que são públicas.

Nesse espaço, a interação é diferente, pois os fãs podem reagir com RealMojis, mas os comentários precisam ser aprovados pela figura pública antes de se tornarem visíveis.
Como criar uma conta e publicar no BeReal?
Para começar a usar o BeReal, baixe o aplicativo disponível gratuitamente para Android (Google Play Store) e iOS (App Store).
Depois de abrir o app, toque em “Começar” e preencha as informações solicitadas.

Você receberá um código de verificação via SMS que deve ser usado para confirmar seu número e concluir a criação da conta.
Após configurar a conta, você já pode aguardar a notificação diária quando o app enviar o alerta “É hora de BeReal”. Toque na notificação para abrir o app, e você terá dois minutos para capturar sua foto dupla.
A câmera frontal e traseira são ativadas ao mesmo tempo: aponte para o que deseja mostrar com a câmera traseira enquanto o app registra sua selfie.

Pressione o botão de captura e, na tela seguinte, confira o resultado. É possível refazer a foto, mas isso ficará registrado para seus amigos verem.
Por fim, toque em “Enviar” e pronto: sua publicação diária está no ar.
Por que o BeReal viralizou (e depois esfriou)?
O BeReal explodiu em popularidade em 2022 em um momento em que os usuários, especialmente da Geração Z, demonstravam cansaço em relação à estética hiperproduzida do Instagram e ao consumo excessivo de conteúdo.
O fato de o app não ter curtidas nem seguidores ajudou a criar um ambiente focado na “conexão real” entre amigos.
E o sucesso foi tão expressivo que, em setembro de 2022, o BeReal já havia ultrapassado a marca de 53 milhões de downloads.
O crescimento meteórico culminou com o reconhecimento da Apple, que elegeu o BeReal como o aplicativo do ano para iPhone no App Store Awards 2022, descrevendo-o como um serviço que “oferece aos usuários uma visão autêntica da vida de sua família e amigos”.
A cópia pelos gigantes e a perda da exclusividade
Logo após a ascensão do BeReal em 2022, o Instagram e o TikTok lançaram funcionalidades que copiavam diretamente o formato do app.
O Instagram testou o recurso “Candid Stories”, que funcionava de maneira similar com a captura simultânea das duas câmeras.

O TikTok criou o “TikTok Now” com a mesma lógica de notificações diárias.

A cópia por parte das gigantes do setor fez com que o BeReal perdesse seu principal atributo: a novidade. O que antes era único passou a ser mais um recurso disponível em plataformas já consolidadas, o que diminuiu o apelo do app original para muitos usuários.
Um modelo que se mostrou sem receita e de uso limitado
Além da concorrência, o BeReal enfrenta um problema mais profundo e estrutural: seu modelo de negócio.
Por um longo período, o aplicativo operou sem uma fonte clara de receita, funcionando como uma plataforma gratuita e sem anúncios. A falta de um plano de monetização sustentável sempre foi um ponto de interrogação sobre o futuro do app.
Somado a isso, a própria mecânica que o tornou famoso (um único uso de cerca de dois minutos por dia) limita naturalmente o tempo que os usuários passam na plataforma.
Embora isso estivesse alinhado com a proposta de combater o vício em redes sociais, o engajamento reduzido representa um desafio para manter o interesse a longo prazo, em um mercado onde a atenção do usuário é o bem mais disputado.
O “efeito novidade” se dissipou para muitos, e a rotina diária do aplicativo, que antes era um atrativo, passou a ser vista por alguns como uma obrigação.
Ainda assim, a plataforma manteve uma base de usuários engajados que valorizam o conceito de autenticidade que o BeReal representa, mesmo que o momento de “febre” global tenha arrefecido.
O BeReal ainda existe em 2026?
O BeReal ainda existe e passou por uma transformação nos últimos anos. Em junho de 2024, o aplicativo foi adquirido pela empresa francesa de jogos e aplicativos Voodoo por cerca de €500 milhões (aproximadamente US$ 500 milhões).
Com a aquisição, o fundador Alexis Barreyat deixou o cargo de CEO, sendo substituído por Aymeric Roffé, que assumiu a missão de construir um modelo de negócios sustentável para a plataforma.
A mudança de propriedade marcou o início de uma nova fase para o BeReal, que passou a priorizar a monetização após anos operando sem uma fonte clara de receita.
A chegada dos anúncios e a reação dos usuários
Sob a gestão da Voodoo, o BeReal lançou sua plataforma de publicidade. Inicialmente testada na Europa e no Japão, a expansão para os Estados Unidos ocorreu em abril de 2025, com a contratação de Ben Moore, ex-executivo do TikTok, como Managing Director para o país.
Os formatos publicitários foram desenhados para espelhar a experiência do usuário, incluindo anúncios in-feed direcionados e takeovers exclusivos de um dia inteiro.
Mais de 200 marcas já testaram campanhas no BeReal, incluindo Nike, Netflix, Amazon e Levi’s, que relatou ter alcançado engajamento cinco vezes maior em comparação com outras redes sociais.
A reação dos usuários, até o momento, parece estar alinhada com a filosofia do app: a publicidade foi introduzida de forma gradual (atualmente um anúncio a cada quatro posts) e com foco em manter a autenticidade que define a plataforma.
Onde o app está hoje no Brasil?
Embora os dados para o Brasil não estejam detalhados em pesquisas, o aplicativo BeReal está disponível no país, com suporte ao idioma português na App Store e Google Play.
A relevância do BeReal no mercado brasileiro parece ser menor em comparação com seus principais mercados (EUA, França e Japão), mas há indícios de uma base fiel entre a Geração Z, que valoriza a proposta de autenticidade e conexão genuína do aplicativo.
Avaliações de usuários brasileiros na Google Play indicam que, embora existam usuários ativos no país, alguns relatam problemas como notificações atrasadas e dificuldades no upload de fotos, sugerindo que a experiência local ainda pode ser aprimorada.
Como funcionam os anúncios no BeReal?
O BeReal oferece dois formatos principais de anúncio, ambos desenhados para se integrar à experiência nativa do app e não quebrar a imersão do usuário:
- In-Feed Ads: são anúncios integrados ao fluxo natural de conteúdo, que imitam o formato típico dos posts do BeReal. Eles apresentam uma foto da câmera frontal ocupando a maior parte do espaço, com uma foto da câmera traseira sobreposta no canto superior esquerdo. Segundo o BeReal, esse é o formato mais vendido por ser o mais “seamless” (sem costura) e não intrusivo;
- Takeovers: são anúncios exclusivos que ocupam a tela inicial do app por um dia inteiro, com visibilidade máxima e 100% de share of voice para uma única marca.

A estratégia do BeReal para atrair anunciantes se baseia em dois pilares. Primeiro, a autenticidade. Segundo dados do BeReal, 80% dos usuários dizem se sentir mais seguros na plataforma em comparação com outras redes, e estudos mostram que anúncios em ambientes positivos têm melhor desempenho em recall de marca e intenção de compra.
Segundo, o aplicativo permite que marcas publiquem como usuários comuns, seguindo as mesmas regras de autenticidade e sem impulsionamento algorítmico. O BeReal, portanto, tenta equilibrar a necessidade de monetização com a preservação da experiência que tornou o app popular.
Vale a pena para marcas estarem no BeReal?
O BeReal mudou muito desde que virou febre em 2022. Hoje é um app consolidado com mais de 40 milhões de usuários ativos mensais, mas para marcas brasileiras, a pergunta não é se o app é grande, e sim se seu público está lá.
Para quais negócios pode funcionar
Marcas com proposta autêntica, jovem e que valorizam o “por trás das câmeras” encontram no BeReal um terreno fértil. O formato do app é ideal para mostrar o cotidiano real de uma marca, e não apenas o conteúdo polido das campanhas.
Marcas que já testaram o BeReal internacionalmente incluem Nike, Netflix, Amazon, Levi’s, Apple, L’Oréal e Chipotle.
No Brasil, o Burger King foi uma das primeiras marcas a entrar na plataforma, usando o perfil para compartilhar o cotidiano das lojas, bastidores de produções e oferecer cupons de desconto exclusivos.


A proposta de “mostrar a vida real da marca” foi o motivo declarado pela vice-presidente de marketing da ZAMP (máster franqueada do BK no Brasil).
Para os seguintes segmentos, o BeReal pode fazer sentido:
- Moda e lifestyle (para mostrar bastidores, lançamentos e o dia a dia das peças);
- Cosméticos e beleza (como a Glossier, para mostrar o processo real por trás dos produtos);
- Alimentação (para promover ofertas relâmpago e mostrar a experiência do consumidor);
- Universidades e educação (para conectar com estudantes da Geração Z de forma autêntica);
- Marcas com propósito (para destacar medidas sustentáveis e valores da marca).
Para quem não faz sentido nenhum
O BeReal não é para marcas B2B, serviços financeiros tradicionais, indústrias pesadas ou qualquer negócio que dependa de conteúdo altamente produzido e controlado.
O app não tem feed infinito, não permite filtros e a interação é limitada a um post por dia, o que inviabiliza estratégias de volume ou de anúncios massivos .
Marcas que precisam de segmentação granular, retargeting ou métricas tradicionais de alcance também vão encontrar dificuldades. Embora o BeReal tenha lançado anúncios in-feed e takeovers de um dia inteiro, a plataforma ainda é pequena comparada a Instagram e TikTok
E não tem problema ficar de fora. O BeReal é um app complementar. Se seu público não está lá, investir tempo e recursos em uma plataforma com uso diário médio de dois minutos pode não trazer retorno.
O critério para entrar em qualquer rede nova
A regra de ouro para marcas é: onde está o seu público, não onde está o hype.
O BeReal tem forte presença nos Estados Unidos, França e Japão . No Brasil, o app está disponível e há uma base fiel entre a Geração Z, mas a relevância ainda é pequena em comparação com os mercados principais.
Antes de investir, pergunte-se:
- Meu público-alvo no Brasil usa o BeReal ativamente? Se você atende jovens urbanos, com estilo de vida autêntico e conectado, pode valer a pena testar;
- Tenho conteúdo autêntico para mostrar? Fotos produzidas ou “forçadas” vão destoar do tom do app;
- Posso medir o retorno de forma realista? Métricas de engajamento no BeReal são diferentes: a Levi’s viu engajamento cinco vezes maior, mas em uma base menor de usuários.
Se a resposta for “sim” para as três perguntas, vale a pena criar um perfil e testar com conteúdo de bastidores e ofertas exclusivas, como fez o Burger King. Se não, espere: o BeReal ainda está evoluindo, e o mercado brasileiro pode crescer nos próximos anos.
O que o BeReal ensina sobre o comportamento nas redes sociais?
Se há uma lição que o BeReal deixou para o marketing, é que autenticidade é um imperativo de performance para as marcas nas redes sociais.
Rafael Kiso, CMO e fundador da mLabs, destaca que influenciadores médios (50 mil a 100 mil seguidores) geram mais confiança do que celebridades: cerca de 73% das pessoas confiam neles, e apenas 16% confiam totalmente em celebridades.

Kiso explica que o fator decisivo é a percepção de proximidade e especialização: quanto mais nichado e autêntico o conteúdo, maior a sensação de verdade, o que constrói confiança mais do que alcance ou status.
Patricia Ramírez, diretora-geral do BeReal na Espanha, reforça que a autenticidade se tornou um valor escasso hoje: segundo dados da Deloitte, 70% dos usuários sentem agonia ao tentar fazer uma foto “publicável” nas redes tradicionais.

O BeReal respondeu a isso com uma aposta radical: proibir fotos geradas por IA e eliminar algoritmos de recomendação, porque “a IA não pode sentir emoções” e “o valor diferencial das pessoas será precisamente sua capacidade de se mostrar vulneráveis”.
A lição transcende o aplicativo: as pessoas não se conectam com a perfeição, elas se conectam com a verdade.
Gostou das dicas? O BeReal revelou uma verdade incômoda: as pessoas estão exaustas de perfeição. Não importa se você está no app, e sim se sua marca é autêntica onde já está.
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